Acabei de ver Marley e Eu, baseado no livro homônimo. Filme feito pra família. Engraçado, divertido, tocante. Vou apanhar por isso, mas o filme supera o livro ao usar o pior cachorro do mundo como uma forma de discutir a família, as escolhas o envelhecimento, a felicidade escondida numa vida mais simples, medíocre até. Ao fazer isso, tornou a história ainda mais universal. A gente pode dizer que esses temas estavam também no livro. Mas ficavam escondidos atrás de todos os relatos de como Marley fez isso e aquilo. No meio dessas narrativas, os questionamentos de Grogan sobre suas opções ficavam meio que perdidos.
Da mesma forma, no filme alguns momentos marcantes a respeito de como Marley se comportava se perdem, não têm a mesma força. Por exemplo, o dia em que ele fica quietinho consolando Jenny (Jennifer Aniston). No livro, com o poder e o tempo da prosa, Grogan pode sublinhar o fato de que Marley, que nunca parava, ficou completamente diferente naquele segundo. Ou ainda o dia em que uma vizinha é esfaqueada e Marley age como um cão de guarda, ficando de peito estufado a vigiar a entrada da casa. Tudo isso se dilui na fluência do filme. O diretor David Frankel (de O Diabo Veste Prada) se recusa a usar o recurso deselegante do narrador além do necessário. No fim, achei uma decisão acertada.
Para isso, o roteirista Don Roos (que escreveu e dirigiu filmes bacanas como O Oposto do Sexo) usou alguns truques que podem incomodar quem leu o livro. Criou um personagem que faz as opções opostas às do protagonista. Um solteirão convicto, bem sucedido profissionalmente, que é tudo que Grogan (Owen Wilson) queria ser. Além disso, temos menos cachorros e mais seres humanos na história. Mas não deixa de ter labradores fofinhos. E também tem um fim triste. Não sobrou nenhum olho seco no cinema.
Eu sempre quis ter um cachorro quando era criança e minha mãe não autorizava. Cresci conformado até que, um dia, minha irmã apareceu com uma yorkshire já adulta lá em casa. O namorado de uma amiga tinha dado pra ela, a mãe da moça não quis a bichinha e a Anna resgatou pra nós. O nome era Tchulla.
Levamos no veterinário. Ela tinha por volta de quatro anos (isso significa que não sabemos a idade dela ao certo) e muito tártaro, otite, sarna, mais uma cicatriz de uma cirurgia. Talvez uma hérnia. Sabe-se lá o que foi. Adotamos a Tchulla e ela, no início, contava como cadelinha da Anna. Passou dias sem latir nem comer direito. Lembro dos primeiros passeios em que eu deixava ela me levar. Deixava ela me dizer a hora de parar. Eu tinha a sensação de que ela tinha passado por poucas e boas e merecia um desconto.
Nos primeiros dias, minha mãe, obcecada por limpeza, não queria a cadela passando da cozinha. Medo de ver xixi no carpete. Medo de ver cocô também, claro. Em poucos meses, Tchulla estava na casa toda. Em algum tempo mais, dormia com a minha mãe.
A história é típica. Um dia, eu fui embora pra São Paulo, minha irmã foi embora pro Canadá. Minha mãe ficou com a Tchulla e as duas foram ficando mais e mais ligadas. No meio do caminho, a Tchulla escolheu sua nova dona. Quando a Anna voltou e podia ter levado a Tchulla pra morar com ela e o Cris, já não fazia mais sentido. A dona dela era a minha mãe.
A Tchulla, com tantos anos, tem um monte de pequenas e grandes histórias. Um dia, quando eu já não morava mais lá, a Tchulla montou guarda na frente do banheiro de empregada por horas até minha mãe ficar intrigada. Quando o marido dela foi investigar e mexer ali, um rato apareceu e a foi a Tchulla que o espantou e o fez pular pela janela do segundo andar. Bizarro. Sabe-se lá como, um rato entrou no apartamento da minha mãe. Eu morei lá por 20 anos e nunca vi um nem de perto. Depois daquele dia, nunca mais se viu outro. Fiquei pensando se a Tchulla não tinha tramado aquilo para ficar bem com a família.
Tchulla se revelou também uma boa leitora de caráter. Um suposto amigo meu era sempre recebido com terríveis latidos pela Tchulla, que geralmente era tranquila com outras pessoas. Anos depois, ele se revelou um tremendo babaca com quem já não falo por quase uma década.
Ela e Sagan, meu maltesinho, tinham uma relação deliciosa. Foi Tchulla, aos 10, 11 anos, que tirou a virgindade dele. Deu uma de Mrs. Robinson. Ficamos com medo de que a Tchulla inventasse uma gravidez tardia. Mas aquele ato de luxúria acabou não rendendo frutos.
Tchullinha sempre foi carinhosa. E foi doloroso vê-la emagrecer, perder todos os dentes, ficar com o pelo mais ralinho e rouquinha com o passar dos anos. Um dia, descobrimos uns tumores. Ela passou por uma cirurgia, extraiu os focos e nunca mais teve nada. Estava velhinha, bem debilitada pela idade, mas saudável. Até que entrou em colapso de uma semana pra cá.
Aí, foi a minha mãe que começou a me preocupar. Minha mãe já teve um infarto. Hoje, tem 63 anos. Eu me vi tentando deixar ela mais segura de que a eutanásia seria uma opção viável. Tchulla estava com, acreditamos, 16 anos. Mal conseguia andar. Estava cega, surda e nitidamente gagázinha. Começou a ter episódios noturnos em que gritava desesperada e depois ficava prostrada. Teve convulsões. Estava fraca e, os exames constataram, com uma infecção. Era a hora de abreviar o sofrimento dela e de proteger a minha mãe também. Eu falei com ela por telefone, pedi que ela levasse a Tchulla para fazer eutanásia. Desliguei e meus olhos encheram de lágrimas. Pensei em como tinha sido fácil dizer aquilo de longe. Eu em São Paulo, num shopping, ela sofrendo com a Tchullinha no Rio. E um monte de coisas passou pela minha cabeça.
Ontem, minha irmã levou a Tchulla ao veterniário. Ele procurou a veia, fez ela dormir. Depois, uma droga para parar o coração. Foi rápido.
Peço desculpas por soar piegas. Mas não consigo me controlar. Eu fico lembrando de novo e de novo daqueles primeiros dias quando ela nem latia ainda, de tão desconfiada e assustada. Quando eu peguei cada grão da ração e fui dando pra ela. E ela comia devagar, com uma mistura de medo e cautela. Tímida. Aquela primeira refeição dela foi mágica pra mim.
Eu não a via há meses. E não vou vê-la nunca mais. Achei essa foto legal que eu tirei dela muito tempo atrás. Eu tinha, junto com meu cunhado, uma livraria num prédio comercial. Lá no térreo, abriram uma pet shop. Um dia qualquer, eu tirei essa foto dela. Tinha uma luz de meio de tarde, ela estava linda, tranquila. Quero que essa seja a foto oficial da minha primeira amiga canina de verdade. A que me ensinou a realmente amar os cachorros pelas suas virtudes enormes, claro. Mas também pelas suas deliciosas imperfeições. Ela foi a primeira em tudo. E, por isso mesmo, foi a minha primeira cachorra que morreu e deixou esse vazio estranho.
Não há palavras pra descrever isso. É o fim. É o fim. É onde acaba tudo. É só uma cadelinha. Nem sabia fazer truques. Mas ficamos todos arrasados. Eu fico ouvindo de novo minha mãe dizendo que “a nossa Tchullinha se foi”. Ela não sentava, não dava a patinha. Era só a mascote que abriu meu coração para o que viria depois. E esse depois - obrigado, Tchulla - , com o Darwin e o Sagan, graças ao que você me ensinou, foi sensacional.
Quando moleque, e até mesmo na minha vida adulta, até eu comprar o Sagan, oito anos atrás, eu odiava filmes com animais. Qualquer tipo. Odiava. Achava uma chatice atroz. Depois do Sagan e, ainda mais, do Darwin, isso mudou bastante.
Vaoi daí que estou descobrindo pérolas do passado completamente inesperadas. Tava pesquisando uma lista da revista americana Entertainment Weekli que indicava os seis melhores filmes de cachorro da história. No meio, tinha um de 1986 chamado “The Adventures of Milo & Otis”. Nunca tinha ouvido falar.
Aí, urrum, arrumei o filme e comecei a ver. É sensacional. Mesmo. As imagens que os caras conseguiram são incríveis.
Dá uma agonia enorme, porque os caras colocam os animais em situações absurdas, algumas arriscadas mesmo. Esse filme jamais seria feito desse jeito, na raça, hoje em dia, porque a forma de tratar os animais é beeem diferente hoje. Mas o fato é que eles juntaram tudo e contam uma história adorável.
Fala de um cachorro, um pug (tipo a Clementina) chamado Otis, que fica amigo de um gato chamado Milo. A brincadeira do diretor, que é japonês, foi meio que ir criando um monte de situações e depois ir colando numa história coesa. Dá pra ver a autenticidade das reações dos bichos. Surpresa, medo, excitação. Coisas que, quem conhece animais e estudou minimamente os limites do treinamento, pega imediatamente. O filme foi feito ao longo de quatro anos. Quatro! Então é claro que eles iam registrando tudo e tranformaram o resultado numa fábula.
Na versão original japonesa, lançada em 1986, a voz é de Shigeru Tsuyuguchi. Em 1989, foi lançada nos Estados Unidos a versão que nós conhecemos por aqui, narrada por Dudley Moore.
Mas e como é que você vai ver o filme? Talvez você já tenha visto, oras. Passou aqui no Brasil com o nome As Aventuras de Chatran. Foi exibido milhares de vezes pela Globo na Sessão da Tarde.
Começando semana passada, vou passar um ano em Londres estudando. Na Inglaterra, cachorros só entram depois de um período de observação de seis meses em que ficam “guardados” em um canil. Azar o meu.
Estou sentado na escrivaninha do meu quarto e ficou claro que vou demorar pra quebrar alguns costumes. Por exemplo, sempre olho ao redor antes de empurrar a cadeira para trás e me levantar. Afinal o Darwin ou o Sagan podem estar ali e ser machucados. Vejo cachorros por todo lado. E todos me lembrar o Darwin ou o Sagan. Os barulhos normais de todo quarto, que numa casa de dono de cachorro sempre são oriundos dos bichos, aqui são dos encanamentos, do quarto de cima, do lado. Mas eu sempre acho que são os meninos fazendo alguma bobagem.
E, óbvio, tem um vazio enorme da falta deles, principalmente do Darwin. De noite, eu sinto aquele vazio. Era quando eu chegava e ia dar aquela voltinha com ele. Fazia monólogos com ele, como se estivéssemos conversando. ELe olhava pra mim e seguia o caminho. Olhava pra mim com o que eu queria que fosse compaixão, mas era qualquer outra coisinha de cachorro, e fazia um xixi. Mas era uma delícia.
Ou então, enquanto eu estava sentado escrevendo alguma coisa e o Darwin colocava a cabeçona quadrada no meu joelho e ficava me olhando logamente. Depois, ele ia pra debaixo da mesa e aparecia por entre as minhas pernas me pedindo atenção.
São todas as pequenas coisas e mais um pouco.
Por conta disso, comprei um mini-Darwin. Só para ser muito sacaneado, ehehehehe.
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Eu sempre me impressiono com essa tendência. Antigamente, um animal com problemas físicos desse nível seria sacrificado sem dó nem piedade. Hoje em dia, muitos donos optam por cuidar do animal. Há quem diga que é egoísmo do dono. Bobagem. Um animal doente, que sofre de verdade, é inconfundível. Os bichinhos querem viver.
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Cachorros podem aprender truques fantásticos. Mas ajuda muito ter um canal de emergência tão bem aparelhado quanto o 911 dos Estados Unidos.
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Muitos pesquisadores dizem que, pros animais, não existe a nossa noção de quantidade de tempo. Nós dizemos dez anos, 20. Até porque temos um calendário. Pra eles, aconteceu. Não importa muito se semana passada ou dez anos atrás. Uma vez, o Billy, gato da Anna e do Cris, desapareceu por um mês, em sua maior aventura. FOi uma comoção impressionante. Tão grande que a Mabel, a gata do casal, veio na esteira dessa história.
Donos de cachorros ficam frouxos mesmo. No dia em que meu amigão faz dois anos, vale contar uma história sobre isso. Eu, por exemplo, sofri uma metamorfose em três fases…
Eis que Darwin faz dois anos em pouco menos de um mês. Aquele lab preto safado virou parte da minha vida. Eu reclamo dele, brigo com ele, mas não quero ele longe. Acontece que vou ter que ficar longe, sim.
É que vou fazer um curso na Inglaterra, aquele país no qual um cachorro não entra sem passar por uma quarentena de seis meses. Eu não vou submeter meu negão a isso. Então, começou um drama para arrumar quem fique com ele por esse tempo.
Não. Eu não quero dar o Darwin pra ninguém. ELe é meu menino. Ele vai envelhecer comigo. Mas eu preciso de alguém que fique com ele por alguns meses. Alguém que vá me devolver ele depois. O principal candidato é minha mãe. Mas ela está com medo do trabalho que meu meninão pode dar. Eu discordo dela. O Darwin não dá tanto trabalho, porque é um labrador que não destrói a casa. Mas tem que sair com ele, pelo menos, duas vezes por dia (eu saio três, inapelavelmente). E quando não sou eu quem está com a guia, ele puxa bastante.
Como vou resolver isso? E, eu sei que você nem pensou nisso, como eu vou viver vários meses sem meu pretinho?
Fiquei três semanas sem ele. Mudança. De vida, de ritmo, de casa. ELe foi pra casa de uma amiga e voltou hoje.
É quando a praça entra no jogo. Horácio Sabino. Entre a João Moura e a Cristiano Viana, perto da Heitor Pentado. Aos sábados e domingos, um monte de cachorros levam seus donos, ops, um monte de humanos levam seus cachorros para brincar.
Foi lá que eu comemorei o aniversário de um ano do negão, do pretinho neném. E é lá que vamos comemorar o segundo ano, claro.
Gravado na praça Horácio Sabino. Participação de Paçoca (a Golden Retriever, melhor amiga ever do Darwin), o Nhoque (um shitzu adorável) e o meu branquinho rabugento, o maltês Carl Sagan.