
Vou tirar um elefante da sala. Ou pelo menos avisar que ele está lá.
Meu labrador lindo, o Darwin, teve um tumor maligno na pata, amputou um dedo duas semanas atrás e agora eu vivo um dia depois do outro a tensão de saber se ele vai ficar bom ou se vai começar aquela briga sofrida contra uma doença absolutamente imprevisível.
Isso tudo aconteceu em seguida à morte do meu outro cachorro, o Carl Sagan. Um negócio que arrasou completamente o clima na minha casa. Minha mulher entrou em depressão, eu ainda não sei direito o que sentir ao entrar em casa. O Darwin, bem, ele está claramente mais triste. Sempre teve outro cachorro por perto. Agora, usando o colar elizabetano (o “abajur”), com a pata doendo, fica sozinho por algumas poucas horas todos os dias, apesar de todos os nossos esforços. Tem se comportado heroicamente bem.
Mas então, o tumor é maligno. Foi extirpado, mas pode ter sido tarde demais. Pode ter se espalhado e a quimioterapia vai ser crucial nas chances do meu cachorro. No sábado, surgiu um calombinho. Hoje já está menor. Pode não ser nada. Estou contando as horas até a consulta com a veterinária-oncologista hoje no fim do dia. Cada coisa que surge é um susto. Mas ele não sabe de nada e, dizem os veterinários, isso é sua maior vantagem. Sem entender o que está acontecendo, não se abate. Continua querendo viver, correr atrás do osso, pular em cima do sofá. Continua querendo estar comigo o tempo todo, custe o que custar.
Não temos estrutura emocional para correr e adotar outro cachorro para fazer companhia pro Darwin, só por adotar. Amamos nossos bichinhos com todo o coração. Não dá para substituir como se fosse algo mecânico. Aliás, um monte de pessoas usa o argumento de “outros cachorros virão”. Deixa eu avisar, pessoal. Não é assim, não. Eu vou ter outros cachorros, sim. É da vida de uma pessoa que ama cachorros ir tendo outros. A gente, enquanto tinha os dois, vivia pensando em adotar mais um. Natural que isso aconteça logo, logo. Mas agora… não.
Agora eu preciso resolver o aperto no coração sempre que olho pro meu pretinho. O labrador que não estraga nada, que é doce de um jeito que nem sei explicar. Eu sei que parte disso é culpa minha. Tenho até medo de ter suprimido com o treinamento mais agressividade do que seria desejável. Se alguém me assaltar, leva o Darwin fácil. No colo. Lambendo as orelhas.
No sábado, o Darwin estava no carro em que um mecânico estava mexendo. O homem entrou, manobrou o carro, colocou na plataforma e o Darwin estava no banco de trás. Só então eu o tirei de lá. Trinta e seis quilos de pura travessura no meu colo, fazendo aquele corpinho mole e safado que só os cachorros sabem fazer.
Darwin e Sagan mudaram minha vida. Sagan nos deixou muito antes do que a gente imaginava e agora eu luto para evitar que o Darwin, meu pretinho, me deixe ainda mais cedo. Foi passeando com ele que eu conheci uma nova leva de amigos que vão comigo pra vida. Seu jeito adorável me ajudou a fazer novos amigos fora do ambiente de trabalho pela primeira em vez sabe-se lá quantos anos.
Darwin é um rockstar. Eu ando com ele nas ruas e todo mundo quer saber como vai a patinha. Quando saio com ele, o vejo parando ao notar certas pessoas do outro lado da rua. Gente que eu não imagino quems eja, mas que ele conhece dos cumprimentos das centenas de passeios sem mim, com quem quer que seja que o levou por aí. Ele conhece a vizinhança bem melhor do que eu. Se eu morro amanhã, ninguém vai notar. Se for o Darwin, um monte de gente vai saber e ficar triste.
Como é que um cachorro é capaz disso? Como é que, sem literatura ou música, um cachorro pode ter impacto nas vidas de outras pessoas a esse ponto? Ok, eu não sou daqueles que antropomorfizam e inventam lendas. A culpa é nossa, dos donos que sempre trombetearam o cachorro ao mundo. Fizemos festinha de um ano que virou um evento na pracinha que frequentávamos. É também culpa dele e de seu temperamento adorável. É impossível conhecer o Darwin e não gostar dele. Sei de algumas pessoas que compraram cachorros para elas mesmas ou para os filhos depois de conhecer o Darwin. Sagan era lindo, fofo, mas tinha um gênio do cão (ah,sempre adorei essa piadinha). Darwin não. Ele sempre foi todo doce. Cem por cento carinhoso. As pessoas têm medo do labrador preto e grandão, principalmente de noite. Ele não é fofinho e como o Sagan sempre foi. Mas quando abrem a guarda e deixam ele se aproximar e fazer seu carinho usual… Pronto, estão conquistadas.
Agora eu olho pra ele, para os pontos na patinha. Cada coisa me alarma. Cada respiração ofegante me preocupa. A patinha está quente, inchada. Um pontinho abriu. Será mais um tumor? Será?
Você sabe, eu vou continuar me preocupando sempre, porque cada vez que surgir um calombinho qualquer eu vou pensar que o câncer voltou. De uma forma torta, se eu continuar me preocupando por muito tempo é um bom sinal. Significa que ele está lá do meu lado. Baby steps. Só quero que a patinha fique boa, que eu possa brincar com ele na praça, algo que não faço há quase cinco meses. Quero que essa fase vire uma memória distante e que um dia, quando ele morrer velhinho, eu seja capaz de enxergar que ele teve a chance de ir mais longe. E eu consiga rir do medão que estou passando hoje, de como fiquei assustado com essa fase ruim. Rir porque vou ter a chance de ter tantas memórias a mais de meu labrador inesquecível.
estou torcendo, rezando e sei que vai dar tudo certo.
Nós amamos o Darwin, ele vai superar esta fase e vamos ler muitas histórias dele aqui.
beijos para vocês três.
Eu to passando quase o mesmo q tu.
Tenho 9 cachorros no interior do rs, eles moram com meus pais, ano passado um morreu, andava a 4 anos na caderinha d rodas, passou jns 4 meses e o filho dele fico na mesma situacao, ta na cadeirinha. Agora o guga, irmao do que ta na cadeirinha, ta com um tumor maligno na patinha, foi retirado um pouco e parece q ta aparecendo na outa patinha. Meus pais estao trazendo ele pra porto alegre pra tratar e talvez fazer quimio. Eu to mto triste, nao consigo dormir, nao quero perder mais um anjinho…. Imagino como voces estao se srntindo agora. Se puder manda noticias do darwin. Desejo melhoras pros nossos gurizinhos.
Fran
Sempre gostei do Darwin, desde pequeno ele é um charme, eletrico, imprevisivel, e tdo social, gostava de tds, cães e pessoas, era sapeca nos sabemos…mas é mto fofo, foi um baque qdo o vi sem a patinha, mas olhamos o rabo dele e abanava tdo contente, logico que é uma barra, mas espero que ele passe bem por essa…Eles tem mta mais capacidade que nos, seres humanos, de se adaptar ao novo, fora que não estão nem ai para os olhares dos outros, ESTAMOS TORCENDO E REZANDO POR ELE DE TODO CORAÇÃO, EU A HAIA E tds os nossos amigos….Fique com “Deus”…e volte logo a praça….
Oi, Alex e Mônica…
Meu nome é Katia e também tenho um labrador. Na verdade uma menina: a Iuna. Tenho ela por conta do meu outro cão: o Benguela. Ele é um vira-lata de 30 kilos que muito provavelmente é de uma cruza entre Pit Bull e Dog alemão (???). Não sei dizer, encontrei ele na rua e ele me seguiu e adotou minha casa. Ele é terrível e por causa dele que acabei conhecendo seu site – machucou a unha tentando abrir um buraco no piso do portão da garagem…
Enfim, fiquei muito apreensiva com a situação do seu cão. Li seu post e nele vc pergunta como um cão é capaz de mudar nossas vidas… eu não tenho essa resposta, mas posso afirmar que o amor que tenho por meus dois cães salvaram a minha.
Perdi um bebê no oitavo mês de gravidez no dia 2 de abril deste ano, como pode imaginar fiquei deprimida e quase cheguei ao fundo do poço. Mas foi graças ao Benguela e a Iuna que me cobravam atenção e cuidados todos os dias, que fui “obrigada” a me levantar da cama a cada manhã e manter o equilíbrio.
Hoje, 3 meses depois, estou me sentindo muito melhor, e estou sendo recompensada a cada dia com estes dois traquinas aprontando e me dando tanto carinho que nem cabe em mim…
Enfim, queria dividir essa minha experiência e dizer que também estarei rezando pelo Darwin.
Um abraço,
Katia
Oi Alexandre,
Não leio seu blog desde que você estava em Londres, se não me engano…
Estou de molho na cama com uma forte gripe e me lembrei de ler seu blog, para me distrair. Que choque! Primeiro, o Sagan e, agora, o Darwin. Olha, perdi minha primeira cachorra, a labradora Mel, aos 4 anos de idade, em 2005, apenas duas semanas depois de voltar com ela e meu marido de uma temporada de quase 2,5 anos nos EUA. Foi ingestão de corpo estranho (osso de corda) seguida de erro médico, pois minha cachorra foi ficando desnutrida e desidratada, sem comer nem evacuar no período de uma semana. Com a sua morte, cuja descrição é filme de terror, tive depressão e, honestamente, até hoje não me recuperei completamente dessa perda, pelo absurdo da situação. Minha segunda cachorra, a labradora Pepita, veio “substituir” a Mel. NUNCA cometam esse erro, nem com animal de estimação, nem com filho. A Pepita vocês quatro conheceram, tendo inclusive participado da festa de um ano do Darwin… Hoje tenho muito carinho por ela e adotei mais duas cachorras após minha mudança para Barretos. Nunca se preocupe em achar piegas demonstrar seus sentimentos pelos seus cachorros. O mundo continua dando voltas, aproveite bem sua existência com aqueles que você ama. Eles não são apenas cachorros, nós é que somos apenas gente. E antropomorfizar animais só é estranho porque sugere nossa superioridade, o que é algo bem arbitrário, não?…
Lembranças a vocês e o melhor pelo Darwin.
Cynthia
Só vi seu blog hoje, muito tempo depois da publicação do post. Eu queria saber como está o seu anjo. Eu tenho dois cachorros, adotados, com sofrimentos concedidos pelos humanos, mas que hoje têm meu carinho incondicional. E lendo seu post, me senti um pouco dona do Darwin também. Me senti um pouco mãe dele. Senti todos os momentos que você narrou como se eu estivesse lá. E, concordando CENTO E UM por cento com o comentário acima, da Cynthia… nós somos APENAS gente. Não somos ninguém, não somos nada. Não aprendemos nada, até termos um cachorro. Aí, sim, experimentamos o amor puro e verdadeiro que nenhum ser humano é capaz de sentir ou está disponível pra compartilhar. Aprendemos que o respeito e a convivência só é de verdade se nos entregarmos de verdade. E não com a hipocrisia que aplicamos nas relações humanas. Eu amo meus cachorros, eu amo o seu cachorro, eu amo todos. Com a mais pura sinceridade e verdade, pois só eles são capazes de serem INTEIROS pra nós. Paz pra vc!