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This article was written on 09 ago 2007, and is filled under Abandono, Cachorros, Darwin, Melhores Amigos, Sagan.

Melhor Amigo: Kaiser

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Eu vi o Kaiser pela primeira vez há dois meses, mais ou menos. Levei o Darwin para um raro passeio de fim de tarde na praça Horácio Sabino (eu nunca estou em casa no entardecer) e o São Bernardo bonachão se enfiou lentamente no meio de um monte de cães brincalhões. Logo, um dos pequeninos rosnou e latiu pra ele, que grudou no dono. Fiquei fascinado pelo jeitão daquele gigante cheio de ternura.

O São Bernardo pesa hoje um pouco mais que 72 quilos e exibe a maior saúde. Apenas seis meses atrás, estava abandonado num sítio à beira da morte. Sorte dele que o caseiro da propriedade do Anderson, o cara que se tornaria seu novo dono, viu o Kaiser (que ainda não se chamava Kaiser, claro) abandonado no sítio ao lado, que tinha sido vendido. Anderson ficou intrigado e foi lá averiguar. Achou o cachorro todo sujo, esfomeado, assustado e sem forças, com provavelmente uns 20 quilos a menos. “Ele era pele e osso. Dava para contar as costelas”, diz Anderson olhando pro Kaiser com o maior orgulho.

O gigante estava diminuído pelos seus infortúnios. Tinha berne, carrapatos e pulgas, subnutrição e estava muito fraco. “Eu achei que ele fosse morrer antes de chegar no veterinário. Vim com ele no carro tenso, olhando o tempo todo pra confirmar que ainda estava vivo”, conta o dono.

Kaiser ficou dois dias no soro. O veterinário disse que as chances do cachorro eram pequenas. Nada se compara a ver o cãozinho (no caso de Kaiser, um cãozão) se recuperando. Foram meses com ele ganhando peso, recuperando o viço do pelo e começando a perder o medo do mundo. Sim. Porque um cão nessas condições fica meio assustado, desconfiado. Aos poucos, começa a confiar nos outros, nos cachorros e volta a brincar e se socializar.

Algumas semanas atrás, eu vi o Kaiser de novo e fiquei surpreso de ver como ele estava melhor tão rápido. Ele já dava umas corridinhas e até começou a entrar no ritmo alucinado do Darwin, que parece ligado numa tomada 220 volts. Andersou contou que que a chegada de Kaiser não foi muito bem recebida pela sua mãe. A família tinha cinco pastores no sítio, mas cachorro em casa era coisa proibida. A única exceção tinha sido um dálmata que morreu de cinomose e meio que traumatizou o dono. “Eu fiquei com medo de ver outro cachorro morrer antes da hora. Lembrava do dálmata que ficou comigo só por dois meses. Aquilo foi muito triste”, fala Anderson.

A desaprovação da mãe acabou em tom de comédia. Anderson chegou em casa um dia e deu de cara com ela sentada no sofá fazendo carinho em Kaiser, o gigante. Quando viu que o filho chegou, ela disfarçou para não dar o braço a torcer. Acabou tendo que admitir: estava apaixonada pelo Kaiser também. Não resistiu ao jeitão carinhoso do amigo grandão.

Quanto mais conheço donos de cães, mais me impressiono com a capacidade das pessoas de amar um animal que, muitas vezes encontraram por aí. Anderson acordou de madrugada e, bêbado de sono, foi resgatar um cão que ele nem conhecia. Gastou alguns milhares de reais no esforço de salvar seu novo amigo e ainda teve que convencer a mãe de que ter um São Bernardo era uma boa idéia. Por que todo esse esforço?

Hoje eu encontro o Anderson quase toda noite quando nós dois vamos passear com nossos cachorrões. Digo. Eu com meu cachorrãozinho e ele com o cachorrãozão dele. Ele mesmo se surpreende com cada coisa nova que seu amigo faz. É uma brincadeira, um movimento novo que provam que Kaiser está voltando a ser um cachorro normal e mais confiante. Ele olha pro dono em busca de apoio e vai se aventurando, brincando com novas pessoas e com os cachorros que vão aparecendo. E para a gente que o vê regularmente é muito engraçado também. Eu sou dono de um cachorro extremamente social. O Darwin é cheio de bom humor e gosta de cumprimentar e brincar com todos os cachorros do mundo. Naquele primeiro dia, em que o Kaiser veio andando devagarzinho e se misturando com a cachorrada, eu fiquei com medo de que ele atacasse o Darwin. Sempre tenho esse medo, porque sei como os machos são imprevisíveis. O Darwin foi lá, diante do meu olhar de pânico, cheirou o Kaiser, e virou amigo instantâneo, daquele jeito que só os cachorros conseguem. Foi quando eu me acalmei e passei a curtir o nosso novo amigo gigante. Ele veio pra ficar.

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