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This article was written on 12 ago 2007, and is filled under Cachorros, Comportamento, Lendas, Saiu por aí.

As lendas sobre os animais

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A imagem mitológica, tirada pelo fotógrafo Patrick Schneider para o Charlotte Observer, dos Estados Unidos

Cachorros são uma delícia. São lindos (até quando feios), divertidos (mesmo quando fazem besteira). Mas cachorros são cachorros, não são gente.

No entanto, tentam provar que os bichos são maravihosos perpetuando fábulas. Uma delas é a dessa foto acima. Eu já recebi uns dez e-mails contando a história de como essa doberman grávida lambeu o rosto do bombeiro por gratidão. Ela a teria salvo minutos antes de um incêndio. Não são ma fé, claro. Mas as pessoas que, pelo menos em sua maioria, adoram animais e mandam essas mensagens, talvez não imaginem o dano que essas histórias podem fazer.

Leia o texto que o pessoal adora mandar como se fosse verdadeiro:

O bombeiro exausto tinha acabado de salvar esta doberman prenha de um incêndio na casa do seu dono. Ele a resgatou e a levou para o gramado em frente à casa. O bombeiro teve medo dela no início, pois nunca tinha resgatado um doberman. Quando finalmente o fogo foi apagado, o bombeiro sentou no gramado para recuperar o fôlego e descansar. Um fotógrafo do jornal “The Charlotte Observer” notou o doberman andando na direção do bombeiro. Ela se aproximou do homem que tinha salvo sua vida e as dos seus filhos ainda não nascidos e o beijou. E ainda dizem que os animais são irracionais!

Lindo né? Mas é só uma fábula. Na verdade, não foi isso que aconteceu, como uma pesquisa mais profunda poderia comprovar.

A imagem foi clicada por Patrick Schneider (é a terceira foto da galeria de Editorial Images/News), do jornal Charlotte Observer em julho de 1999. O bombeiro Jeff Clark combatia o fogo em uma casa e, quando parou pra descansar no gramado em frente à casa, foi lambido por uma doberman que tinha fugido da casa em chamas sem nenhuma intervenção dele. Simples assim. Não houve uma cena de salvamento com trilha sonora emocionante. Não rolou câmera lenta nem nada do tipo.

Leia o que Clark disse sobre o ocorrido:

Não fizemos nada para salvar Cinnamon (canela, em inglês). Quando temos um incêndio em uma casa, temos que fazer uma busca primária. Pode ainda haver pessoas na casa. Nossa primeira preocupação é salvar vidas. Aquela casa estava cheia de fumaça e não podíamos ver nada. Tudo que eu vi foi um cachorro correndo pra fora e outro que já estava no jardim. Eu acho que Cinnamon saiu sozinha. A cadela me abordou. Assim que eu me ajoelhei e tirei minha máscara, Patrick (o fotógrafo) estava próximo e tirou a foto.

E por que eu me dou ao trabalho de falar disso? Porque acho que as pessoas deveriam gostar dos animais pelo que eles são e podem ser e não por uma imagem idealizada, fantasiosa que só contribui para a decepção e o abandono. É difícil determinar quantos dálmatas foram abandonados depois que os donos descobriram que eles não faziam aqueles truques fofos do filme 101 Dálmatas, mas foram milhares. E o padrão se repete com diversas raças que ficam famosas de tempos em tempos. As pessoas esperam sentimentos humanos de cachorros. Esperam que eles sintam vergonha, quando não sentem, que eles entendam coisas que jamais vão entender. Em alguns casos, são pequenas bobagens inofensivas.

Outra fábula popular é a do dono que chega em casa (que pode ser a casa de um lenhador, um barraco, uma mansão, vai mudando ao sabor de quem conta) e encontra seu cachorro ensanguentado. Aí, assume que seu animal assassinou o bebê da família e, apavorado (e precipitado), mata o mascote. Na cena final, que tenta dar uma grande lição sobre a vida, não sei bem qual, encontra o bebê a salvo e um lobo (ou uma onça, um leão, um ET…) morto ao lado do berço. Lindo, né?

Bom. Aqui no Melhores Amigos, eu não vou perpeturar isso. Não quero contar lendas. Quero falar de cachorros de verdade, de gatos, de furões e de todos os bichos bacanas. Eles são seres vivos e pensam (ou você achava que não?). Tomam decisões erradas (para nós), têm desvios de comportamento e, no fim, essa é parte da graça. Eu gosto de animais. Os de verdade, que comem sapatos, que pedem atenção e sujam a casa. Que lambem o ladrão, porque não sabem que ele é mau, e mordem o vizinho, porque confundem a linguagem corporal deles com a de um atacante. Eles não são máquinas precisas e nem carregam uma sabedoria especial sobre a vida. Eles tropeçam, comem demais ou de menos, latem na hora errada, miam e enlouquecem a vizinhança, destroem o sofá. Eu adoro esses bichos pelo que trazem para a minha vida, pela imprecisão. Mas eles têm graça porque erram também.

Se eu quisesse algo diferente, comprava um Tamagotchi.

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