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This article was written on 09 ago 2007, and is filled under Cachorros, Comportamento, Darwin, Sagan.

A melhor amiga do Biju

Dizem que cachorros se arriscam por seus donos e eu acredito. Nunca passei por nenhuma situação limite que exigisse a intervenção do meu maltês de três quilos e meio nem, muito menos, do labrador de 30 e poucos. Mas sei também que muitos donos são capazes de qualquer coisa por seu dono. E tive uma prova legítima alguns dias atrás.

Domingo passado, por exemplo, eu passava uma tarde divertida na praça Amundsen, em frente à entrada principal do parque Villa Lobos, com o Darwin, o Sagan e mais dois labradores. Uma amarela linda de cujo nome eu não lembro e um preto, muito parecido com o Darwin, chamado Biju.

E o Biju é lindo, muito parecido com o Darwin. Preto, fortão e com o maior bom humor. Eu mesmo já dei o vexame de repreendê-lo uma vez achando que era o Darwin. Morri de vergonha quando percebi o erro e o olhar da dona dele. Aliás, só o olhar. A dona dele é japonesa e não fala quase nada de português. Era até divertido a forma com ela chamava ele de longe, gritando um “biiiiiiiiiiiiiiiiii’ bem agudo. O dono da labradorinha estava animadíssimo e estava há mais de uma hora na praça. Nesse meio tempo, tivera -a duras penas, é verdade- uma conversa com os donos do Biju e eles tinham contado como queriam levá-lo pro Japão com eles em alguns meses.

Nossos labradores davam voltas na praça (que é cercada) e brincavam, rolavam no chão e tudo mais que um labrador adora e que, depois, rende no mínimo uma escolvada e, em alguns casos, banhos imprescindíveis. Bi estava vidrado na labradorinha e o Darwin aceitou numa boa ficar meio que segurando vela, desde que eles corressem com ele de vez em quando.

Até que chegou um boxer forte e lindão. O Darwin, como de costume, foi o primeiro a correr até ele e cumprimentá-lo com a tradicional lambida nas partes pudendas e, depois, com o ritual de lamber a baba do novo amigo. Não rolou nenhuma hostilidade. Mas o Darwin, depois do cumprimento, correu pra mim em vez de continuar brincando. Achei um sinal estranho e não titubeei, coloquei a guia nele para evitar problemas.

Nem bem terminei de ouvir o clique da presilha da guia, vieram os rosnados e latidos e os trinta segundos que se seguiram pareceram uma eternidade…

O boxer se engalfinhou com o Biju, provavelmente para tomar-lhe a labradora fêmea. A dona do “biiiii” se agarrou no seu cão para tirá-lo dali e o pai dela tentou segurar o boxer. Sem sucesso, claro. O homem era pequeno, provavelmente pesava um pouco mais do que os 50 a 60 quilos do cachorro. Pra piorar, o boxer usava coleira, em vez de um enforcador.

Enquanto isso, eu segurava o Darwin, que latia e pulava apavorado com a movimentação, e a Mônica agarrou o Sagan. Agora, o engraçado é que o Sagan ficou mais irritado e queria avançar no boxer!!! Era até meio ridículo, no meio da confusão, aquele pinguinho de menos de quatro quilos querer se meter em uma briga entre dois cães para lá de 30, 40 quilos.

No espaço desses segundos, eu vi o tênis da moça voar longe (em câmera lenta) e ela rolar no chão abraçada com o Biju, se arriscando a tomar uma, duas várias mordidas sérias do boxer irritado. Ela nunca largou seu cachorrão e seu pai lutava para controlar o boxer. Os donos, coitados, estavam do outro lado da praça e, nesses poucos segundos, não tinham conseguido chegar.

De repente, o pai da moça conseguiu dominar o boxer. Acho que a chegada dos donos restabeleceu a ordem. A dona do Biju ficou mais alguns segudos deitada, agarrada nele. Era como se quisesse garantir que ele estava a salvo. Quando finalmente levantou, viu que o olho dele estava sangrando. Parecia que ia chorar ao mesmo tempo que gritava palavras ininteligíveis. Levaram ele prum canto, colocaram água na ferida e sairam pro veterinário.

A dona do boxer, desolada, pediu desculpas. Ela nunca tinha visto ele se comportar dessa forma.

Então vamos por partes:

1. Cachorros que atacam, principalmente nesse contexto, não são vilões assassinos. Estão na maior parte das vezes tentando se impor num local onde há outros machos. Eles são cachorros, se comportam assim. Cabe a nós ter um mínimo de conhecimento dessas sutilezas dos bichanos para evitar problemas. Ler um livro, se informar com o veterinário ou com o adestrador ajuda muito.

2. Sabendo disso, donos de machos muito dominantes precisam tomar mais cuidado, sim. Se algo de errado acontece, a culpa é deles e não do animal, que apenas segue sua programação genética e cultural. O boxer devia estar na guia e jamais poderia ter sido solto. Eu, por via das dúvidas, fico o tempo todo ligado. Como meu cachorro é muito sociável, já levou vários rosnados e mordidas de cachorros menos bem humorados e socializados do que ele. Cada vez que ele não se envolve em briga e volta pra mim eu recompenso ele. Dane-se que ele fique meio bobo, o que eu quero é que meu cachorro evite brigas a todo custo. Não tenho o Darwin como cão de guarda, mas sim de companhia. Da mesma forma, eu não deixo ninguém se aproximar do maltês, o Sagan, que é temperamental e morde, sim. É claro que uma mordida do Sagan não é nada de desesperador, mas machuca e incomoda.

Mas, no meio disso tudo, não vamos perder de vista o gesto abnegado da dona do Biju. Ela é carinhosa, se importa com seu cão e se arrisca por ele. É engraçado como, se fosse um filme, na hora em que disseram pra mim que o Biju ia pro Japão com os donos, ele estaria condenado a morrer. Sabe como é essa estrutura clichê de filmes hollywoodianos? Mas o fato é que, por causa da paixão e da amizado da dona pelo seu labrador bobão, o Biju vai, sim, conhecer o Japão. Boa viagem, menino!

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