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This article was written on 27 nov 2006, and is filled under Arquivo Cãofidencial, Cachorros, Comportamento, Darwin.

O nome dele é… é…

A Mônica me deu um cachorrinho pouco mais de duas semanas atrás. Um labrador, a raça mais adorada do mundo. Legal e tal. Mas eu sempre quis um e mesmo assim nunca comprei. O motivo? Medo de não dar conta, de não conseguir cuidar do bichinho direito e de me ver, daqui mais um tempo, tendo que doá-lo a alguém. Sempre deixei a idéia de ter um labrador para depois, para o dia em que vou ter uma casa com quintal bacana etc.

Mas a Mônica é diferente de mim. Ela é passional e realmente viu a minha cara quando eu descobri o cãozinho no outro dia em uma petshop. Ele veio, ficou no meu colo quietinho, olhou ao redor e me chamou de pai (Oh!! Coisa pro “Acredite Se Quiser”? Não, claro, ele me lambeu e só).

Nós já temos um cãozinho, o Carl Sagan. É um maltês que a Mônica comprou meio que por impulso seis anos atrás. Nunca me imaginei tendo um maltês. Acabei me apaixonando pelo bichinho e hoje não imagino minha vida sem ele.

Bom, mas voltando ao labradorzinho, um dia toca a campainha aqui de casa e chega um cara com um labrador preto lindo. Eu pirei, claro, e fiquei apavorado, naturalmente. Como eu já disse mais em cima, a Mônica é diferente de mim: comprou o cachorro, mas não comprou os acessórios básicos de uma empreitada como essa e foi um deus nos acuda.

Corremos para comprar uma gradinha, comedores adequados, coleira, tapetinhos e os primeiros dias foram infernais. Cocô e xixi fora do lugar e, como o menino era apenas um bebê de três meses, higiene não era ainda o seu forte. O problema seguinte é que ele ficava com uma agitação louca, porque não pode sair de casa sem as últimas vacìnas.

Mas tudo isso se juntou à confusão da escolha do nome. Fui pego de surpresa. Eu sempre disse que queria chamar meu cachorro de Peter Parker, em homenagem ao meu gibi predileto (Homem-Aranha), mas, de alguma forma, achei que o nome não estava adequado. Como eu também adoro Galactica (e você ainda não sabia que eu sou um nerd de primeiro escalão?), a melhor série de sci-fi que já vi, resolvi chamá-lo de Adama. É o comandante (agora almirante) da nave que dá nome à série. Você pode imaginar a confusão?

- Qual é o nome do bichinho?

- Adama?

- Ah, então é ela, né? Uma dama…

- Não. Adama, ele se chama, Adama.

- Ah, ok…

Surge Mônica, uma metralhadora de nomes malucos para qualquer coisa. Ela muda o nome das coisas a cada meia hora e logo estava dizendo que, como ele é preto e atabalhoado, poderíamos chamá-lo de Jack Black (sacou? Hein, hein? Black, black, preto. Genial, né?).

Todos os nomes que ela bola são ótimos. O Sagan já ganhou o simpático apelido de White Vader, por exemplo. Então, no meio da saraivada de idéias, ela disparou um que soou sensacional, perfeito, maravilhoso e uma dupla perfeita para o Carl Sagan.
Enfim, depois de duas trocas de nome, definimos o final. E o engraçado é que, de alguma forma, quando eu passei a chamar com esse nome, o cãozinho começou a atender melhor. Minha convicção fez toda a diferença. Eu tinha agora achado o nome que julgava perfeito.

É Darwin. Charles Darwin.

Uma coisa que vale dividir com quem vive a experiência de ter cachorrinhos foi o terror de imaginar que eu nunca daria conta dele. Com dois dias, um acidente deixou ele com um corte de quatro pontos no focinho que, um pouco mais em cima, poderia tê-lo cegado. Fiquei apavorado vendo o sangue correr e foi a Mônica que teve a calma de estancar o sangramento.

Lembrei que, quando o Sagan tinha apenas alguns poucos dias conosco e era um pouco maior do que a minha mão, ele escapuliu, caiu de cima de uma cama e desmaiou. Fiz minha camisa de maca e o levei correndo para o veterinário. Quando ele acordou, já estava na garagem do prédio comigo e eu entrava no carro. Ele olhou pra mim e eu senti que o cachorro era meu e que a gente ia ficar juntos, não importava o que acontecesse.

Com o Darwin foi a mesma coisa. Quando eu olhei aquele corte fundo, pensei que ele era meu amigo e que eu tinha falhado com ele. Fiz aquela promessa silenciosa e desesperada de que não ia mais deixá-lo em perigo. A partir daquele momento, quando ele se machucou e realmente precisou de mim, parecia que ele tinha mesmo se tornado parte da família.

Vieram as vacinas e ele começou a poder sair. Só nesta última semana eu acho que comecei a entender como a coisa toda funciona, porque ter um cachorro grande é muito diferente da experiência de conviver com um pequeno.

Depois de anos acordando nunca antes de oito da manhã, passei a me levantar, seis, sete, para levá-lo na rua. Li livros de adestramento, vi DVDs, comprei um monte de coisas e agora estou estudando o método clicker, que é sensacional. Alguns amigos brincam comigo que eu arrumo um livro para cada coisa que gosto. É verdade. Vou atrás de fontes de informação sempre que uma coisa nova aparece.
Quero que meu cachorro tenha uma vida legal e, para isso, sei que preciso aprender as formas mais bacanas de treinamento. No primeiro dia, apavorado com a bagunça, cheguei a dar uma chinelada no bicho e me senti um monstro. Depois disso, decidi que ia educá-lo sem recorrer a esse tipo de atitude. Está dando certo. E daí que ele é grande e desastrado? Estou dando um jeito.

Vou colocar ele numa escolinha de agility, porque quero meu cãozinho ativo e saudável. Vou treiná-lo do jeito mais amoroso e amigável possível e quero que isso me ajude também a corrigir meus erros com o Sagan, o maltês. Aliás, o Sagan também está “matriculado”. Quando você vê os bichinhos brincando, pulando, correndo entende que a gente inventa um monte de subterfúgios para justificar a sistemática castração de todos os instintos dos bichinhos. É uma forma de torná-los sub-humanos dependentes de nós a cada passo e também um jeito de desculpar a nossa preguiça. Eu sei que cães são muito adaptativos e que é por isso que se tornaram os animais mais próximos de nós. Mas ao mesmo tempo, precisamos saber tratar nossos animais como amigos em vez de objetos que nos pertencem.

E, por favor, quando você consegue ter toda essa compaixão por animais, devia tomar vergonha e se lembrar dos seus semelhantes também. Esse meme imbecil de que “prefiro meu cachorro a muitos seres humanos” virou a justificativa padrão para sociopatia. Gente que odeia cachorros e outros animais não pode ser normal. A mesma coisa para gente que não gosta de gente.

A seguir, alguns livros e vídeos que eu comprei:

Livros

The Complete Idiot’s Guide for Labrador Retrievers – Muuuuuito legal. É engraçado, traz um milhão de informações úteis, mas é pobre em ilustrações.

Maran Illustrated Dog Training – Nota dez. É ilustrado e traz um monte de formas de treinamento que vão dos comandos básicos até os truques legais. Foi muito útil.

Treine Seu Cão – Muito legal. Bem ilustrado e em português (veja no site da editora)

DVDs

Dog training – The John Fisher Way – Chaaaato. É útil para visualizar algumas técnicas, claro, mas esses caras não sabem fazer o vídeo ter alguma graça.

Educação do Filhote – De novo. É chato, a produção é amadora, mas traz informações legais. Vale uma olhada como referência de movimentos e comandos.

Adestramento Básico de Obediência – A mesma coisa que o anterior (é da mesma produtora). Valem as informações, mas a produção é bem amadora.

Dealing Dogs – Esse documentário da HBO é impressionante e não pode ser visto por quem tem coração fraco e gosta de bichinhos. Mostra os bastidores de uma organização que vende cachorros para institutos de pesquisa. É aterrador. O filme de terror mais eficiente do ano. Os monstros somos nós…

Revista

The Bark é a melhor revista sobre cachorros que eu já vi. Nada daquela babaquice de padrão de raça. Trata o hábito de ter animais como comportamento. Não interessa a raça, o que vale é o relacionamento entre o cão e seu dono. Não existe nada parecido no Brasil. Aqui a gente continua com aquelas publicações ruins, mal feitas e que parecem jornal de condomínio ou de clube.

(texto publicado originalmente em www.alexmaron.com.br)

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