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This article was written on 15 fev 2004, and is filled under Arquivo Cãofidencial, Cachorros, Comportamento, Sagan.

Amores Perros

Quando compramos o Sagan, eu dei pra ler de tudo sobre cachorros e sobre malteses em geral. Nos livros, dizem que se adaptam aos donos, que são dóceis e, suprema dor para um dono, que não são lá muito inteligentes. Isso significa que eles não aprendem truques como os labradores ou como as poodles, por exemplo. Tudo bem. Sagan não faz truques. Dane-se. Além do mais, o que é um truque?Ele sabe muito bem os truquinhos dele. Quando quer carinho, tem um jeitinho de ronronar (isso mesmo, que nem um gato) que amolece o coração de qualquer um. E como ele adora carinho na nuca, se aproxima, ronrona e mostra a nuquinha.

Sagan, ao contrário de outros cachorros que eu conheço, não é um comilão. Ele vai lá. Come o que lhe interessa e deixa comida sem problema. Mesmo não sendo hiperativo, não é gordo.

E quando tem fome, sabe direitinho, sem que ninguém tenha ensinado a ele, como dizer. Ele chora baixinho e, quando a gente vai perguntar o que é, ele se dirige à cozinha e mostra o prato vazio. Coisa que cachorros mais inteligentes sabem fazer, eu sei. A mesma coisa acontece com a coleira. Já que é sinônimo de passeio, ele sabe chorar e ir até a coleira pra pedir passeio.

Foi ele quem me ensinou a brincar. Eu estava acostumado à rotina de jogar um objeto, esperar o bicho pegar e trazer pra mim. Coisa dos retrievers. O Sagan até fez isso um pouco, mas ele gosta mesmo de brincar de pique. Ele pegava um brinquedinho e letia pra mim. Quando conseguia minha atenção, saia correndo. O safado tinha até uma rotina. Ele saía pelo corredor, entrava no meu quarto, ia pelo canto até o outro lado da cama e, quando eu ia até lá, ele escapava por debaixo da cama e saia do quarto. Ele é um cachorro, eu sou humano. É claro que o truque dele me surpreendeu da primeira vez e que, se eu quisesse, nunca mais ia funcionar. Mas eu adorava vê-lo fazer isso. Era divertido segui-lo pela casa.

Disse tudo isso no pretérito imperfeito porque ele parou e brincar quando a gente comprou uma cama nova que não era alta o suficiente pra ele correr por baixo. Eu fiquei meio frustrado, mas imagino que ele ficou mais.

Entra na história a Sophia Loren. É a cadelinha que a minha sogra comprou porque adora o Sagan e acha que ele precisa de uma namorada. Eu, ativista pró adoção de vira-latas, tive que engolir essa. Mas afinal nem é um grande sacrifício. O problema é que ter um casal de malteses levanta outras questões como a castração ou as medidas anti-concepcionais…

O que importa nesta narrativa é que a Sophia mudou a dinâmica das relações na casa. Eu e Mônica já tínhamos tudo definido em nossa vida com o Sagan, mas precisamos nos adaptar a mais um por aqui. O Sagan, no início, parecia não gostar da nova companhia. Ficou meio quieto, irritado, mocambuzio. Ela, sem problemas quanto a isso, passou a segui-lo e provocá-lo de todos os jeitos. Desesperado, não era raro ele vir até nós pedindo colo para poder escapar dela só um pouquinho e descansar.

Para desesperá-lo ainda mais, Sagan não sobe em lugar nenhum. Primeiro porque ele é pequeno mesmo e não tem lá tanta força assim. Mas principalmente porque levou um tombo feio quando era pequeno e morre de medo de saltar obstáculos. Então, ele está a mercê dela, que pode pular onde e quando quiser e sempre é capaz de alcançá-lo. Como eu disse, ele ficou desesperado.

Mas não está mais. Algumas semanas depois, ele odeia se afastar dela, e ela, dele. Hoje, eu fui levá-lo pra passear e descobri o quanto a companhia da Sophia é importante. Sagan não queria sair. Foi até a esquina e, quando notou que a Sophia não vinha, me puxou de volta até o prédio. Queria entrar. Levado no colo pra longe, foi passeando meio sem vontade, fazendo seu xixi até que eu falei pra mudar a direção e ele se animou. Fez um pique inédito do local onde estava até o meu prédio. Não parou nenhuma vez. Corrreu desembestado, subiu uma rua, virou a esquina, livrou-se de quem vinha na direção contrária (e eu atrás desesperado e esbaforido me desviando das pessoas e pedindo desculpas).

Só parou em casa, quando encontrou a companheira.

(texto publicado originalmente em www.alexmaron.com.br)

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