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This article was written on 25 nov 2001, and is filled under Arquivo Cãofidencial, Cachorros, Sagan.

A primeira noite de um cãozinho

Ontem foi um dia histórico na vida de meu cãozinho, o maltês Carl Sagan. Sei que você deve achar comentários sobre cãezinhos uma coisa chata, mas eu vou contar sobre a primeira transa dele. Isso mesmo. Um texto cheio de sexo.Transa de cachorro deveria ser uma coisa sem graça. Mas é que cãezinhos novos não sabem como fazer o negócio, então tornam tudo mais engraçado. O mais interessante é que rolou uma coisa meio Mrs. Robinson, de “A Primeira Noite de um Homem”. A cadela que ensinou as artes do amor carnal ao meu cãozinho chama-se Tchulla, a yorkshire da minha mãe. Idade: 11 anos.

Ela nunca deixou ele se engraçar muito, mas ontem, no cio, resolveu ceder às investidas do pobre cãozinho. Aquela coisa meio “a priminha mais velha veio passar uns dias em casa”. Sagan, como todo adolescente, não resistiu à tentação.

O mais legal é que comparando com um ritual de acasalamento humano há coisas engraçadas. Sagan, inexperiente, não sabia muito bem o que fazer. Começou lambendo a Tchulla no rosto.

Depois, ainda perdido, ensaiou um 69 muito desajeitado. Ele não sabia por qual lado entrar. Ficou quase uma hora em posições nada promissoras, tentando descobrir o caminho. Tchulla, impaciente, só esperava.

O próximo passo de Sagan foi tentar uma malsucedida penetração no meio do tronco da Tchulla. Chamamos isso, academicamente, claro, de 34,5, a metade de um 69 (sendo que este último já era beeeem mal executado).

Mas mesmo quando ele descobriu que devia montar na Tchulla na posição universalmente aceita para o coito canino convencional ainda não conseguia acertar. Ele não achava a altura correta. E a Tchulla paradinha esperando. Se pudesse, ia lixar as unhas de tanto tédio.

Fomos lanchar, já achando que não ia rolar. A dupla veio pro meio da sala. Sagan não desistia. A Tchulla, de saco cheio, resolveu dar uma ajudinha. Deitou-se e facilitou a vida do parceiro. Só aí eles finalmente consumaram o ato. Transaram e depois caíram cada um pro seu lado, satisfeitos. Minutos depois, limparam suas tijelinhas cheias de ração, beberam água e foram descansar. Juntinhos.

Cães também vivem amores impossíveis

Claro que é um amor impossível. Claro que a Tchulla pode ficar grávida, embora seja pouco provável. Mas o mais importante é a forma como nós tratamos nossos animais.

Os veterinários pregam a idéia de que você deve castrar seu mascote o quanto antes. Sempre, o tempo todo. Claro que há os óbvios motivos sanitários, mas não é tão simples. O ser humano tem a mania de controlar a vida dos outros animais de uma forma totalmente antinatural sem respeitar-lhes os hábitos mais básicos.

Então transformamos nossos animais em eunucos, como se tivéssemos o direito de fazer isso com eles. Como se fosse algo normal. Uma cena bacana do filme “Planeta dos Macacos”, do Tim Burton, é quando uma das macaquinhas trata sua mascotinha, uma menininha bonitinha, com o maior carinho. Mas você continua chocado porque ela é uma humana.

O que eles poderiam fazer com ela para evitar que ela se reproduzisse? Tirar seus ovários? Aliás, nada muito diferente dos que representantes de saúde pública de países do primeiro mundo fizeram com milhares de mulheres africanas e sul-americanas. Tratando-as como mascotes, resolveram esteriliza-las. Nunca a solução é melhorar o nível de vida das pessoas para que a próxima geração controle sua natalidade de uma forma consciente, sem precisar ser mutilada para tanto.

Mas eu me desviei do assunto. Meu cãozinho é vacinado, bem tratado e tem o direito de fazer sexo, desde que eu seja uma pessoa responsável e não solte seus filhotes por aí para que se tornem problemas sanitários. Desde que eu tome cuidados para evitar que todas as relações dele resultem em filhotes. Mas é importante que isso não afete a sua felicidade.

Embora o mundo seja dominado pelos humanos, eu não acredito que nós tenhamos mais direito que qualquer outro animal a alguma coisa. Nós estamos impondo nossos caprichos ao mundo porque somos mais fortes e isso é muito diferente.

Nós pegamos os cães e os modifcamos ao nosso bel prazer durante séculos. Os bichos agora são inaptos à viver sem nossa ajuda. Imagine um maltês como o Sagan solto na rua? O que fizemos foi subverter o darwinismo. Talvez isso seja algo bom, não sei.

Quando eu e a Mônica compramos o Sagan, quase um ano atrás, ele estava em uma gaiolinha, sozinho, triste. Quando viu a Mônica, se aninhou no colo dela. Foi impossível não comprá-lo (mesmo nos endividando). A sensação que você tem quando cria um animalzinho desses é a de que nenhum bichinho devia ficar em uma gaiola como a que ele ficou, esperando para ser vendido. Não está certo. É por isso que eu acho que, se você quer ter um cãozinho devia procurar adotar um na Suipa.

Eu não compro mais cãezinhos em loja. Agora, depois de criar e me afeiçoar ao meu mascote, acho que, se você quer ter um animal de estimação, devia adotar um dos que a Suipa ajuda e deixar as pet shops que maltratam os bichinhos vazias.

Ainda assim, a Suipa, por pegar os tais cães na rua, tem que esteriliza-los. Como eu já disse, não gosto nada disso. Mas contando que seu destinho seria um forno crematório, dos males o menor.

(texto publicado originalmente em www.alexmaron.com.br)

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